Autor: Paulo Roberto Elias*
08 de julho de 2009, 13:22
Prezados leitores, eu carrego comigo a vida toda uma confessa admiração e respeito pelas pessoas que têm talento, se formam e trabalham na área de engenharia. E, outro dia mesmo, falando com uma delas, que é da engenharia de transmissão, eu cheguei à conclusão de que a televisão digital brasileira compele aos que se envolvem com ela em se aprofundar mais na tecnologia, do que anteriormente. E, neste ponto, a impressão que me passa é que faltam ainda muito estudo e aprendizado, para se chegar ao ponto de ver todo o sistema digital plenamente realizado.
A implantação da televisão digital, pelo menos aqui pelo Rio de Janeiro, caminha hoje num eterno provisório. Uma determinada emissora, por exemplo, sequer se deu ao trabalho de retirar a expressão “Transmissão experimental” do I-plate, mas isso é coerente com o fato de que ela própria está tendo uma aparente enorme dificuldade de acertar o sinal, isso sem falar que raramente transmite qualquer coisa em HDTV.
E, por coincidência, eu estava escrevendo esta coluna, quando tive contato com o departamento de engenharia da TV Brasil, a respeito de um aspecto insólito da imagem da emissora: no ar há cerca de uns dois meses, os seus dois canais transmitem uma imagem 4:3 em 16:9, sem correção na fonte.
E aí, eu ouvi do engenheiro-chefe de que eles resolveram colocar o sinal no ar, sem inclusive anunciar nada a ninguém, porque tem muita coisa que ainda precisa ser feita. Em outras palavras, a transmissão é “pro-forma”, e não há previsão de se tornar oficial, por falta de equipamento. Em se tratando de uma emissora do governo, as compras só podem ser feitas depois de licitadas, e isso atrasa qualquer cronograma de trabalho.
No lado do usuário, a aquisição do conversor ainda é uma aventura
Há algum tempo atrás, liam-se notícias onde os fabricantes ou distribuidores de conversores para a televisão digital brasileira acreditavam que a venda deste produto iria explodir, em curto espaço de tempo. Talvez por isso, e provavelmente por força das tradicionais leis de mercado, da oferta e da procura, os preços inicialmente, subiram mais do que a Apolo 13. E depois caíram vertiginosamente à terra sem, no entanto, encontrarem uma contrapartida em Houston para a solução dos problemas encontrados a bordo.
Idealmente, produtos como esses receptores de sinal digital deveriam ter funcionamento e performance transparentes para o usuário final, que teria apenas o trabalho de instalar (ou mandar instalar) o aparelho, e depois esquecer que ele existe. O que não permite que isso aconteça plenamente é a presença de problemas nas áreas de transmissão, recepção e funcionamento dos conversores, oriundos da implantação ainda incipiente da TV digital brasileira.
Existem basicamente dois tipos de conversor à disposição dos usuários: o tradicional set-top box, para acoplamento ao televisor em uso, ou aquele embutido no aparelho de TV recém adquirido.
Não é possível dizer, creio eu, quem leva vantagem na escolha de um ou outro tipo. As diferenças de preço, somadas à necessidade de atualização de software interno (firmware) e/ou a inclusão de novos recursos, tornam o processo de escolha complicado. Eu imagino que muita gente irá preferir comprar o aparelho separado, na forma de um set-top box, não só pela competitividade do custo, como também porque, se o modelo escolhido não for satisfatório, pode-se sempre comprar outro, sem a necessidade de trocar de TV.
Com uma nova tecnologia, aparecem sempre novos problemas. Alguns deles são criados por parâmetros contidos na escolha do padrão, como é o caso do áudio, que comentaremos mais adiante. Outros problemas são aqueles de parâmetros de espalhamento do sinal, por exemplo, que ainda não foram devidamente testados, seja pelas emissoras, seja pelos fabricantes de conversores.
As dificuldades começam no local de instalação do receptor
Apesar de representantes do governo e das emissoras terem dito que o sinal de DTV se pega até com um clipe de papel, a realidade do usuário é bem outra. Por mais robusto que seja o sistema adotado no Brasil, e por mais que este mesmo sistema permita um alto grau de compressão de informação, sem perder qualidade, ainda assim as condições topográficas dos locais onde transmissores e receptores são instalados não permitem uma recepção isenta de problemas de áudio ou vídeo.
O ISDB-TB tem vários níveis de informação digital onde é possível corrigir erros de bitstream. Em tese, o sistema é super robusto. Na prática, porém, como qualquer sinal digital transmitido pelo ar, ele não é imune a percalços como obstáculos físicos e interferência eletro-magnética, sem falar na distância física entre transmissores e receptores e ausência da linha de visão entre eles.
N.B.: Não é propósito desta coluna explorar ou discutir problemas intrínsecos de recepção, mas basta dizer que se cogita armar um verdadeiro “cinturão de repetidoras” na cidade do Rio de Janeiro, para que finalmente todos possam ter acesso ao sinal digital como originalmente prometido. Esta iniciativa, per se, evidencia a precariedade momentânea de recepção e o reconhecimento dela, por parte das emissoras, tornada óbvia pelas inúmeras regiões de sombra de sinal dentro da área urbana e dos locais mais distantes.
O problema maior para o usuário final, principalmente aquele que não quer se aborrecer com questões técnicas, é saber escolher o receptor (set-top box) que ele precisa, para receber DTV em casa. Existe, entretanto, um cuidado básico a ser tomado: não existem conversores à venda hoje com funcionamento totalmente perfeito, e se dependesse das opiniões negativas divulgadas por vários sites na internet, o usuário indeciso não compraria nenhum!
Origem dos defeitos nos conversores
Qualquer componente eletro-eletrônico é passível de defeito de fabricação, mas o grau de confiabilidade aumentou muito, nos últimos anos, com o uso de processadores altamente integrados. Esta regra se aplica aos conversores de DTV usados no Brasil.
A integração de funções em um microprocessador, por outro lado, trouxe à baila uma questão que praticamente não tinha grande importância na eletrônica convencional: a de que o funcionamento correto das funções de um microchip depende de um programa ou driver, escrito especificamente para ele! E é neste ponto que os problemas de funcionamento da televisão digital começam a aparecer, sem que os fabricantes de conversores pudessem antecipá-los adequadamente.
A DTV brasileira não teve, aparentemente, tempo para um “beta-teste” completo ou suficiente. A programação dos processadores na maioria dos conversores está claramente incompleta ou escrita com erro. Para corrigir isso, é necessário revisar e reescrever novos softwares, e posteriormente disponibilizá-los ao usuário final. E, neste particular, eu aproveito para conclamar alguns fabricantes para parar com este paternalismo de só permitir a troca de software nas suas autorizadas. Por favor, deixem isso para quem não quer se envolver com computadores ou pen-drives. O resto dos mortais resolve este empecilho sem nenhum problema!
O caso do formato de áudio AAC+ revela as inconsistências entre transmissão e recepção
O fato de o sistema brasileiro ter sido modificado para o uso do codec AAC+ (HE-AAC) multicanal não teria tido maiores implicações caso houvesse uma contrapartida no lado dos receptores.
O AAC+ foi escolhido, segundo alguns, por causa da eficiência da compressão de sinal. É de se supor, porém, que este princípio não tem sido de grande valia até agora, a julgar pelos inúmeros “dropouts” (queda de sinal) de áudio que a gente observa cotidianamente. Aliás, segundo o suporte de um fabricante, muitos culpam os conversores por este problema, mas a verdade é que eles podem muito bem se originar na fonte de transmissão, coisa que eu, pessoalmente, acredito ser a hipótese mais provável. E, se for assim, é teoricamente possível pelo menos diminuir o problema, com o aumento de buffer de memória no conversor, ou recurso equivalente.
Porém, um outro problema, bem mais complicado, mas igualmente solucionável, não foi corrigido em qualquer conversor atualmente disponível: o AAC+ não é convertido para sinal multicanal nenhum!
O que se nota, até hoje, é que nem as emissoras nem a indústria de televisores e conversores se tocaram (sem trocadilho) que o AAC+ é apenas uma maneira de transmitir sinal, e como a sua receptividade é trabalhada ao nível do conversor, o papel de conversão propriamente dito se restringiu a gerar PCM 2.0, e daí para a saída analógica e digital, sem contemplar outras possibilidades.
E se a ficha não caiu em nenhum dos dois lados, bem que poderia ter caído no lado de quem fabrica os conversores, porque uma solução existe já faz tempo, para resolver este tipo de problema: é o uso de uma rotina de re-codificação do sinal digital de áudio, para codecs 5.1, capazes de serem aproveitados perifericamente!
Esta solução foi empregada nos primeiros leitores de mídia Blu-Ray, e ela tornou possível passar adiante mídias gravadas com codecs avançados, para processadores externos incapazes de reproduzi-las.
Até hoje, quase todos os aparelhos de leitura de discos Blu-Ray usam esta tática. Um determinado codec pode ser transformado em outro, ou apenas o seu “core” aproveitado. Além disso, se a transformação do codec for para PCM multicanal, por exemplo, este pode ser decodificado no próprio leitor e passando adiante na forma analógica multicanal, que muitos amplificadores externos aceitam.
No caso dos conversores brasileiros, a conversão mais óbvia e econômica seria a de AAC+ para AC-3 (Dolby Digital), porque este codec foi o primeiro codec multicanal com decodificador funcionante em processadores externos, como os A/V receivers. O AC-3 passa por cabo coaxial ou ótico, ou por HDMI, é versátil, e vai até 6.1 canais, sem nenhum problema!
O uso de codecs mais poderosos do que o AC-3 poderia aumentar custos e tornar o sistema de transmissão mais pesado, por causa da elevação do bitrate. Em princípio, as rotinas de recodificação do AAC+ para Dolby Digital 5.1 seriam portáteis o suficiente, para serem incluídas na programação dos firmwares.
Note que não é mais possível reverter a decisão do governo e tirar o AAC+ do sistema. E isto torna ainda mais lógica a redação de uma rotina de firmware que resolva este problema, a nível do conversor. Em outras palavras, bastaria uma atualização de software e o áudio multicanal, se transmitido, poderia ser ouvido por quem já tem um home theater instalado em casa.
Diferença entre as transições de padrão
Quando o Brasil entrou na era da televisão a cores, o padrão escolhido PAL foi adaptado do padrão americano preto e branco “M”, feito originalmente pela RCA e implantado no país na década de 1950. O PAL-M possibilitou a todo mundo que tinha televisores em preto-e-branco assistir as imagens geradas a cores. Na realidade, esta imagem tinha mais contraste e qualidade do que a imagem preto-e-branco anterior, de forma que quem não tinha um televisor a cores naquela época, ainda assim se beneficiou da nova transmissão.
Além disso, as emissoras de TV fizeram adaptações nos transmissores de maneira muito mais tranquila, ou seja, era o mesmo transmissor, porém com a inserção das subportadoras que carregavam a crominância. Resultado: quem comprasse uma TV em cores naquela época não precisava fazer nada a não ser ligar o aparelho no lugar da antiga.
Infelizmente, com a DTV, a situação de transmissão e recepção muda radicalmente de figura: novos transmissores e antenas são exigidos, novas faixas de frequência de transmissão são alocadas, novos receptores e, em alguns casos, sistemas de antenas individuais ou coletivas, em apartamentos ou casas, tem que ser instalados ou modificados.
A padronização do sinal começa nas emissoras
É público e notório que faltou tempo para que a maioria das emissoras e redes estudasse a televisão digital com mais profundidade. O que, aparentemente, está acontecendo e ainda deve acontecer por um período de tempo mais longo é o chamado aprendizado na base da tentativa e do erro.
A isso se soma outra questão, que é a do investimento em equipamentos compatíveis com a realidade do novo padrão de transmissão. Quem já recebe o sinal digital em casa está vendo uma quantidade apreciavelmente maior de material de televisão convencional, muitos dos quais foram criados com câmeras e estúdios de uma geração que já ficou para trás há algum tempo.
Bem verdade que, mesmo o sinal convencional, porém transmitido em HDTV, pode ter uma imagem superior ao da recepção analógica. Mas, passar sinal por HDTV não modifica significativamente as limitações das imagens gravadas em equipamentos de resolução standard. Em outras palavras, se a fonte não for boa, a transmissão por HDTV não vai fazer milagre!
A televisão digital brasileira entrou no ar oficialmente em junho de 2007. Temos, portanto, dois anos do início de um processo irreversível. O trabalho que está aí pela frente é, a meu ver, o seguinte:
1. Padronizar a qualidade do material transmitido, dentro do possível;
2. Aumentar o espalhamento do sinal e estabilizar o funcionamento dos transmissores;
3. Padronizar o nível de amplitude (volume) do som, para evitar as discrepâncias encontradas atualmente entre as várias emissoras;
4. Localizar e corrigir distorções e ruídos nas fontes de áudio transmitidas;
5. Viabilizar o sinal terrestre para outro meio de transporte (por exemplo, satélite), de forma que as populações fora dos grandes centros possam receber o sinal digital sem deterioração;
6. Viabilizar a multiprogramação e dar uma chance àquelas pessoas que não se interessam pelo sinal cotidiano das principais emissoras;
7. Diversificar a programação, para temas ou assuntos que não sejam de culto evangélico ou tele-shopping, novelas, ou filmes e seriados dublados;
8. Colocar o serviço de EPG no ar: este recurso está lá não é à toa, e, na minha opinião bem mais útil do que a tão propalada “interatividade”;
9. Implementar o segundo canal de áudio e o serviço de closed captioning, em todos os canais.
Mais importante ainda é o governo e os representantes das emissoras esquecerem a agenda política e começarem a ensinar concretamente as pessoas em como instalar e receber o sinal digital. A televisão digital é adaptável à realidade de qualquer indivíduo, porque programas em HDTV são retro-compatíveis com os televisores standard, tanto em áudio quanto em imagem.
A qualidade de imagem da DTV é notoriamente superior, tanto no formato standard, quanto em HDTV, comparada a qualquer sinal em provimento por assinatura. Mas, eu acredito que vai ser preciso força de vontade e poder de convencimento, para que consumidores que moram em condomínios possam se servir dos sistemas coletivos de antena, de modo a obter o sinal necessário para a recepção digital. E só se consegue isso se as pessoas envolvidas tiverem clareza de que se trata de uma nova tecnologia.
Seria interessante fazer isso agora, porque o processo de aquisição de conhecimento é lento e tedioso! Caso contrário, estaremos à mercê do fechamento analógico, da mesma forma como os países que já decidiram isso e deixaram milhares de pessoas sem ter acesso aos sinais de televisão.
Paulo Roberto Elias é professor aposentado da Faculdade de Medicina da UFRJ, hobbyista em áudio e vídeo, Mestre em Ciências (M.Sc.) e Ph.D. em Bioquímica.
http://webinsider.uol.com.br
acesso em 18/07/2009
Postado por Evaldo Abreu